O Fórum de Estudantes de Origem Popular convida:

Na próxima quinta (12/03), no Centro Acadêmico de Geografia (que fica no ICHS) às 09:30, será realizada uma reunião aberta de apresentação do FEOP – Fórum dos Estudantes de Origem Popular. A atividade faz parte da programação da Semana do Calouro e é um espaço político de debate, desenvolvimento e construção da atuação dos estudantes no que tange às questões que envolvem acesso e permanência na universidade pública brasileira. O Fórum dos Estudantes de Origem Popular (FEOP) foi proposto pelos bolsistas do Programa Conexões de Saberes das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES). Vale dizer que a universidade pública pode e deve ser discutida pela população brasileira.

Por isso convidamos a todos e a todas interessad@s para partciparem do começo desse debate, que esperamos, culmine na conquista de direitos já garantidos pela constituição.

Pra não esquecer, é quinta (dia 12) às 9h30 no CAGEO.

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Diário de Bordo – Projeto Raízes do Brasil

(Estamos todos aqui na produça da Semana do Calouro, pra não ficarmos enchendo seu saco com o mesmo assunto sempre postamos aqui hoje o Diário de Bordo do Projeto Raízes do Brasil – uma verdadeira viagem pela cultura tradicional deste país feitas pelos cuqueiros em janeiro. Vê aê!)

Durante a VI Bienal da UNE foi possível o contato entre estudantes interessados em cultura, arte e ciências de todo país. Mesmo com vários contratempos durante o evento, muitos cuqueiros conseguiram se unir. Isso se deu em muitos momentos, conto aqui aquele do qual participei.

Salvador

Salvador

Dia 26/01

Estabelecemos sem muito planejamento (quase nenhum na verdade) uma viagem para o sertão, a fim de reconhecer uma realidade diversa da turística exportada pelo mundo a fora do litoral baiano. O tema abordado foi a Guerra de Canudos. Esta viagem foi para dar continuidade ao tema da Bienal e também para estabelecer uma proximidade entre os cuqueiros mochileiros do sertão. A idéia foi do Rafael que estava cansado de Salvador e queria parceiros para uma aventura com sabor de sertão.

Antônio Conselheiro

Antônio Conselheiro

Dia 27/01

A viagem se inicia saindo de Salvador para Monte Santo. A viagem começa na hora, sem atrasos, até que 1h e 32minutos da saída o pneu do ônibus fura. Começam os atrasos e as dificuldades da viagem, as perturbações foram apenas os transportes da região. As cidades que tiveram participação na Guerra foram: Monte Santo, Uauá, Euclides da Cunha e Canudos. Monte Santo é a cidade onde as tropas do Exército da República de alojaram antes do massacre.

A Guerra ou Massacre de canudos é um das histórias mais fortes do país, pois uma população pacata e rural que se une em volta de um visionário, Antonio Conselheiro que por motivos religiosos e sócio-econômicos e políticos se desentendem com as autoridades que os acusaram de monarquistas. A Guerra se dá entre 1896 e 1897, acabando em 5 de outubro de 1897 onde sobram apenas 3 sobreviventes. Muitos homens, mulheres e crianças que não jurassem fidelidade a República eram degolados. Mas nosso interesse é mais em como as cidades estão hoje, e como preservam sua história. A chegada em Monte Santo foi na madrugado do dia 28, entramos logo para o primeiro o hotel que vimos. Um pequeno prédio na praça central da cidade.

o Santuário

o Santuário

A maioria da população de Monte Santo conhece a história de forma superficial e existe um forte debate sobre se os combatentes de Canudos estavam certos em resistir até a morte ou deveriam ter se entregado. Existe em Monte Santo um museu para registrar a história da guerra e outros acontecimentos, como a queda do maior meteorito do Brasil ali naquela região. Um famoso filme foi gravado na região (Deus e o Diabo na terra do Sol) deu ênfase a um roteiro da cidade que ainda é o destino da maioria dos visitantes da cidade. A igreja “Santíssimo Coração de Jesus de Nossa Senhora da Conceição de Monte Santo”, chamada de Santuário em cima de um morro. Os romeiros sobem 1km de uma estrada muito íngreme para devoção e ali depositam replicas de partes do corpo que julgam terem recebido influência divida para criarem.

Réplicas de parte do corpo

Réplicas de parte do corpo

A cidade vive um contraste bem gritante, como em toda Bahia, tanto social como tecnológico. Existe uma grande quantidade de Lan Houses espalhadas, mas existe também a velha tradição de carregar pessoas em caminhões, feiras, festas regadas a forró e quase sempre com algum fundo religioso. Um grande déficit de cuidados com o museu e com a preservação da história se evidência com o uso dos editais, falta de gerência cultural. No museu da cidade encontramos os editais dos pontos de cultura servindo como forro para as estantes!!!). Mas nem tudo esta perdido, existe um projeto da Universidade Estadual da Bahia, tentando fomentar o turismo pelo sertão, chamado “A caminho dos sertões de Canudos”. Pretende-se resgatar a história, a cultura, a culinária, as festas etc. O caminho é trabalhoso e demorado, mas a proposta é linda.

Arquitetura típica

Arquitetura típica

Gostamos da cidade, as pessoas muito atenciosas o vice-prefeito nos levou para conhecer uma festa típica da região em um distrito. Ali, como em muitas cidades pequenas, onde todos se conhecem as conversas se espalham rápido e se consegue informações e ajuda nas conversas em tomando um café ou no bar. Obrigado a Claudia que foi nossa anfitriã na cidade, a conhecemos no hotel.

Conversando sobre o CUCA e como pensamos que a entidade deve trabalhar, vimos que em geral nossas intenções convergiram. O espaço da lista do CUCA deve ser de discutir a cultura e a arte sem deixar de ver as suas relações políticas, como a arte do PIA de intervenção. Mas deixando claro que isso não significa o CUCA funcionar como uma entidade de militância, nem pensar! Tem outra lógica de unir as pessoas que querem trabalhar. Buscar criar os pontos de cultura dos CUCAs e trabalhar para que além de trabalharem em rede criem um diálogo, algumas pontes onde as comunidades externas (extensão) a universidade possa trazer seus conhecimentos e não apenas os membros do CUCA serem agentes de criação e assim gerar o PONTÃO DE CULTURA DO CUCA.

Canudos - região árida

Canudos - região árida

Dia 29/01

Partimos para Canudos, com muitos contratempos e depois de apenas 10 horas de atraso no ônibus chegamos. Para cidades que distam entre si cerca de 240km.A cidade possui um parque de preservação da história, que na verdade é uma parte do local onde as batalhas ocorreram à outra parte do cenário está submersa pelo açude. Quase tudo que era registro da Guerra foi levado por turistas no passado, ou encaminhado para as cidades de Monte Santo e Euclides da Cunha o que sobrou está submerso, hoje não se tem muitas relíquias materiais na cidade sobre o fato. Existe uma iniciativa de uma ong de preservar a história através de um instituto e um memorial público que se encontra em reforma.

a Feira

a Feira

Para atender os turistas a cidade em geral é precária, mas se sente bem o calor, o jeito do sertanista, o clima seco, o valor especial a água do açude e a feira chama muita atenção, é o ápice da semana. Na feira você come às 8h buchada de bode ou pirão feito dos ossos do bode. Conseguimos um guia nota 1.000 o rapaz tinha um conhecimento muito bom e vontade de ensinar o que sabia. A cidade é pequena e sofre com a briga pelo cargo de prefeito que está na justiça se será ou não casado. Existe um abismo entre o litoral em geral e os sertanistas. Parece que eles estão a mil anos luz de distância:

1 – existe mais ônibus saindo para São Paulo do que para Salvador! A maioria da população já foi ou quer ir para São Paulo, ainda é um sonho.

2- A fé católica é um ponto forte, quando indagados sobre terreiros de candomblé negam a sua existência na região. Em Salvador as religiões africanas são evidentes e explicitas.

Vivi-se ali da pecuária de bode e plantações de banana. A religião católica é o principal fator de união entre o povo, a maioria das festas e cerimônias possuem elementos cristãos.

Filmagem: Rafael Gomes (SP),
Fotos :Vanessa Stropp (SP) e Guilherme Almeida (Cuiabá)
Texto: Guilherme Almeida (Cuiabá)

Janeiro de 2009
Realização: CUCA Cuiabá e CUCA SP

Obs: Este é apenas um primeiro relato, o material será editado com cuidado e ficará como documento do CUCA.

As duas culturas: em busca de uma reconciliação

por Guilherme Almeida*
Coordenador de Planejamento do CUCA Cuiabá

Muitos quando indagados sobre matemática ou termodinâmica chegam a ter orgulho de admitir sua ignorância no tema. Mas quando alguém é questionado sobre Shakespeare ou Suassuna e não sabe do que se trata é considerado sem cultura. O analfabetismo em ciências e tecnologia é admissível socialmente e o humanístico não. Porque?

Essa é uma separação ou divórcio como preferem alguns que tem várias origens. Uma delas é quando Napoleão assume o poder na França é o primeiro a separar no ensino superior e técnico as politécnicas das ciências sociais, estrutura de ensino que foi amplamente copiada (Liceu). A imensidão de conhecimentos específicos conquistada através do método cientifico gerou uma fragmentação dentro das próprias ciências naturais física, química e biologia desde meados do século XIX.

Em 1959 o cientista e filósofo Snow descreveu a realidade social dividida em duas culturas, uma científica e outra humanística voltada para as artes, colocando em evidência esta fragmentação do conhecimento, onde aparentemente colocamos os cientistas e a ciência em uma esfera à parte da sociedade, enquanto de outro lado os intelectuais humanistas, escritores, artistas plásticos, filósofos, etc.

Não pretendemos defender um tipo de cultura sobre outro, muito pelo contrário, mas em deixar claro que esse divórcio afasta as pessoas e dificulta a comunicação entre elas e a compreensão do mundo. Essa incompreensão mutua dos agentes das duas culturas gera absurdos no meio acadêmico e na sociedade.

Uma Universidade, que em tese universaliza conhecimentos, deve ater-se sempre a integração destes, precisa partilhar os conhecimentos artísticos, técnicos e científicos sem preconceitos uns aos outros, valorizando cada um e integrando-os. Enfim, termos consciência de que os conhecimentos básicos em engenharia ou química podem contribuir para uma revolução em como produzimos e poluímos .

Mas para decidirmos se queremos mudar nossa realidade e o que mudar é indispensável conhecimentos de questões sociais, haja vista que as questões de ciência dependem de sabermos onde? Como? Quanto investir? E para quem vai estes resultados são questões políticas. Em geral possuímos uma distância de anos-luz entre estudantes candidatos a humanistas e cientistas.
Ensina Santos “[…] ao discutirmos sobre cultura temos sempre em mente a humanidade em toda a sua riqueza e multiplicidade de formas de existência.” Mas esse é um ensinamento esquecido desde os primeiros anos de instrução escolar nestes nossos tempos, que chamo de sombrios. Os antigos gregos ou os renascentistas não separavam a cultura científica da humanística.

Resolver este divórcio não é simples, afinal trata-se de uma “cultura” enraizada fragmentar as coisas, conhecimentos e gostos. Os cientistas e candidatos precisam se comunicar com um vocabulário menos complexo e se interessar mais pelo mundo fora desta esfera e os humanistas não se espantar ou correr da ciência.

*Licenciado em Física – Estudante de Arquitetura e Urbanismo
Ainda sofre com o excesso de razão e fragmentação nos seus pensamentos.

Referências:
Bertrand Russell. The Divorce between Science and “Culture”.
(Nobel em Literatura e lógico matemático).
Carlos Vogt . A Espiral da cultura científica. (Divulgador científico).
José Luis dos Santos. O Que é Cultura.. Brasiliense. São Paulo. 2006.
Frijot Capra – Teia da Vida.